31jul 18

SERÁ QUE ME ENCAIXO NOS PADRÕES LGBTQ+?

 

Foto por: The Sun

 

Uns meses atrás estava no Twitter quando me deparei com uma digital influencer do mundo LGBTQ+, reclamando que uma outra mina estava se queixando do fato dela não pegar mulheres gordas. Fui lá ler do que se tratava, na verdade a menina postou em um grupo fechado sobre a dificuldade de ser gorda e lésbica, porque além dos padrões impostos pela sociedade ela ainda tinha que lidar com o fato de não se encaixar no padrão lésbico de ser magra, loira, etc.

De repente isso tudo virou uma grande discussão mal interpretada onde as minas que deveriam se unir, acabaram se separando ainda mais. Tenho conversado muito com um amigo gay sobre suas inseguranças, sobre como ele se sente preterido na comunidade LGBTQ+ por não fazer parte do “padrão” considerado ideal para a maioria e como isso o impede de se aproximar de alguns caras por medo de sofrer alguma rejeição. Tudo isso me fez refletir no quanto os padrões impostos pela sociedade heteronormativa já causa angústia e que nem mesmo quem se encaixa em uma das siglas LGBTQ+ se sente plenamente à salvo disso.

Por isso, resolvi conversar com alguns membros da comunidade para entender o sentimento por trás de tantas normas e como isso afetava a autoestima e sua maneira de se relacionar com o outro.

Fabio Allves, 32 anos, publicitário (homem gay)

padrões na comunidade LGBTQ+ Foto por: Carol Duarte

 

“O principal problema é a nossa cultura machista e patriarcal, já considerando isso as normas que se aplicam para uma pessoa crescer e conviver já tem diversos obstáculos. Além de você ter que quebrar seus próprios preconceitos e tudo que foi falado desde da infância. Na minha experiência como LGBT foi e ainda está sendo essa desconstrução social e cultural que estava inserido. Meu caso sofri bullying desde do colégio, por conta de parecer afeminado, ter dificuldades de me relacionar com homens da mesma idade e com cultura diferente da minha, era considerado muito sensível e delicado. E por isso discriminado.

Cresci numa família sem referências LGBT na época (sou de 1986) e quando me descobri com 21 anos, as minhas referências eram super preconceituosas e machistas. Tive vários momentos de repensar o que eu estava reproduzindo e o que foi me ensinado. E depois de grande tive que lidar com normas sociais e culturais gays bem machistas, toda a discussão sobre gays afeminados, sobre orientação x gênero, sobre sexualidade (ser passivo ou ativo – ter preconceitos com isso) e por aí vai…

Claro que minha situação ainda é de “privilégio” perto de outras letras do leque LGBTI. Tive questões de autoestima com meu corpo, padronização de estereótipos gays, a comunidade gay com preconceitos internos e toda a militância dentro do movimento e das “minorias” em busca de direitos e igualdade de tratamento. Pressão existe em todos os lados, sejam dos meus familiares, amigos e até ex-namorados. Já tive episódios de ser discriminado por usar saia pela minha própria família. Eu me considero uma pessoa “afrontosa” porque não me calo diante das repressões sejam na minha roupa, jeito ou masculinidade. Já sofri no passado e hoje em dia não deixo ninguém fazer piada ou dizer como eu devo ou não me vestir. Sobre lidar com a pressão, é uma tarefa diária, um passo de cada vez, educando as pessoas, mostrando que roupas ou trejeitos não mudam quem eu realmente sou.”

Camila Monteiro, 26 anos, analista de sistemas (lésbica)

padrões na comunidade LGBTQ+

“Falando sobre a parte L do LGBTQ+, me causa estranhamento lésbicas concordando com os padrões, já que somos todas mulheres. Maaas, sim, o mundo LGBTQ+ na minha opinião sempre esteve ligado a cultura do corpo. De tempos em tempos os padrões vão mudando, mas tem sempre algum estereótipo a ser seguido dependendo da época. Esse mesmo estereótipo seguido de tempos em tempos é também quebrado. Por exemplo, hoje nós temos uma festa que é para o público plus size e alternativo e quem todos se sentem amados, acolhidos e deixa de lado a solidão da mulher gorda, principalmente entre as mulheres. Assim como foi antes com a solidão da mulher negra (esquecida não só por homens, mas por mulheres) e também quebrado (muito aos pouquinhos, mas ta indo). Vejo que se lésbica gosta de se vestir num estilo mais tomboy por exemplo, ela automaticamente associa que também precisa ser magra pra que isso seja esteticamente “bonito” e luta pra manter isso.

É o estilo “Shane” (da série The L Word, que se não assistiu, já recomendo, pq tem todo tipo de lésbica na série rs). Já vi casos de distúrbio alimentar por causa dessa influência. Outro erro é bofinho com bofinho. O universo “L” lê as duas como dois “meninos”. Parece que é errado estar com alguém mais masculina se você também tem trejeitos mais masculinos (e o que é masculino na real? o que define? mas enfim), aí o pessoal cai matando rs. Parece que estão sempre buscando, mesmo que de forma inconsciente, o “homem” e a “mulher” da relação. Gênero, rótulo.”

Juliana Santiago, 27 anos, jornalista (bissexual)

“Como mulher, por exemplo, quando se é Bi, o movimento hoje aceita melhor quando você se relaciona com outra mulher pois o homem cis hétero virou alvo completamente demonizado, quando uma mulher bi deixa de se relacionar com uma mulher e passa a ter um relacionamento heterossexual, os relacionamentos dentro da própria comunidade mudam. Eu me afastei demais das pautas LGBTQ+ por causa desse tipo de padrão,solta um “sai hétero”, “sai macho escroto”, solta um discurso ódio contra os homens cis héteros no movimento e você será aplaudida.

Mas se você começa a ponderar e a questionar certas atitudes do próprio movimento, aí você é completamente ignorada, afastada, podendo sair até ofendida do movimento, ofensas essas que afetam a própria autoestima. As mulheres andam buscando afirmação em movimentos sociais a qualquer custo: chupam até buceta sem gostar para serem aceitas e fazerem parte dos padrões comportamentais e ideológicos dos movimentos, ninguém está livre de padrão nenhum, padrões de “sociedade hétero normativa”, como vc diz, padrões da comunidade LGBTQ+, pois sim!

Os movimentos padronizam até os pensamentos das pessoas sem senso crítico e a relação mais óbvia disso tudo com a autoestima é a vontade de pertencimento é o pertencer ao grupo do momento, ao grupo da geração, que fará com que as pessoas com autoestima baixa se apeguem.”

Charles Brendo, 24 anos, publicitário (homem gay)

“Quando você descobre que você é LGBT, tudo muda na sua vida, no meu caso como eu vim de um seio evangélico tudo era uma novidade, o primeiro porre, o primeiro beijo, o primeiro isso e aquilo. Eu comecei a trabalhar numa produtora onde só tinham lésbicas, elas me levaram pra balada, elas me ajudaram a ter o primeiro beijo com homem e no começo quando eu entrei no mundo LGBT era tudo uma novidade, eu queria experimentar tudo, eu queria ter vários porres, várias emoções. Porém, quando eu entrei nesse mundo eu demorei um pouco pra perceber que não é todo mundo que vai ter atração por mim, que não é todo mundo que vai me achar interessante e ao longo dos primeiros meses eu fui meio que tendo aquele problema: “por que os caras não me acham interessante?”.

Logo depois de um tempo, depois de muito quebrar a cara que eu fui descobrindo que dentro da comunidade tem uma série de padrões, os famosos “padrõezinhos”, se não for branco, loiro, malhado ou negão malhado os caras não vão te achar bonito. Eu demorei mas finalmente eu descobri o grupo a qual eu pertenço que eles intitulam “ursos”, e hoje eu tô no Tinder e eu sei em quem eu vou dar match  porque eu sei quem vai dar match pra mim. Eu sei que branco, malhado, loiro não vai dar um match pra mim então eu já vou no match certeiro.

Eu fui vivendo e me permitindo, mas se eu for analisar todas as pessoas que eu fiquei, eram sempre do mesmo tipo, que foi o tipo no qual eu me senti confortável. Por exemplo, se eu estiver na rua e um loiro estiver me olhando, eu não vou dar bola porque eu vou achar que essa pessoa não me acha atraente, porque dentro de mim eu ouvi um mecanismo que eu sei que tipo de pessoa vai se interessar por mim.

Ouvir essas histórias me fez perceber que ainda temos um longo caminho para desconstruir alguns paradigmas . E eu sei que temos gostos pessoais e que normalmente isso não se discutiria, mas não consigo evitar o pensamento de que, algumas vezes somos condicionados a gostar e admirar um determinado tipo de corpo.”

Ouvir essas histórias me fez perceber que ainda temos um longo caminho para desconstruir alguns paradigmas . E eu sei que temos gostos pessoais e que normalmente isso não se discutiria, mas não consigo evitar o pensamento de que, algumas vezes somos condicionados a gostar e admirar um determinado tipo de corpo.

O caminho para fora do armário social é na maioria das vezes solitário, talvez seja por isso que a maioria tente se encaixar num padrão, para ter a sensação de pertencimento. Independente de qualquer coisa, o que conta é o quem somos em nossa essência. Uma embalagem bonita de nada vale se o conteúdo estiver estragado, não é mesmo?

Qual é o seu conceito de beleza? Já passou por alguma situação em que não se encaixar afetou sua confiança? Conta pra gente nos comentários!

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