Mas deixa eu te contar, miga: ontem rolou a maior briga com o mozinho. Ele foi grosso comigo, porque ele queria que eu apagasse um amigo meu dos meus contatos no celular. No meio da discussão, ele agarrou meu braço com força, segurou firme a minha blusa e até rasgou, você precisa ver. E me chamou de puta! Acredita?

Puta? Ah! Na noite anterior tive que que dar para meu marido e para aquela piranha da amiguinha dele. Se não for assim, vamos nos separar. O que será de mim? Do seguro do meu carro? Da prestação do meu cartão de crédito? Do colégio particular do meu filho? Mas isso não é prostituição, né? Por falar em prostituição, ontem aconteceu uma manifestação de prostitutas para pedir pela regulamentação da profissão. Um horror, né? Vender o corpo não é trabalho. Por falar em corpo, você viu como aquela menina engordou? Está feia! Desse jeito não vai arrumar marido nenhum.

Mal sabiam elas, mas aquela mulher que engordou desproporcionalmente no último semestre porquê um homem, recém-formado, de 25 anos, havia assumido o papel na gerencia da empresa que ela trabalha. Acontece, que o cargo de gerente é dela, mas que excepcionalidade, abriu o mesmo cargo para o jovem rapaz. Será que ela seria demitida? Conta a rádio-fofoca que o salário dele é mais alto. Mas como? Ela está há tanto tempo na empresa.

Pela Constituição Federal do Brasil, de 1988, no artigo quinto, fica estabelecido a relação jurídica de igualdade de gênero, na qual afirma que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”, mas isso, é apenas a ponta do iceberg, explicava a palestrante, entre conversinhas e risadinhas da plateia predominante feminina.

Uma explosão! Um grupo de garotas saem em disparada e entram no banheiro, de forma orquestrada. Elas em gritavam em coro “mulheres menstruam”, fazendo uma analogia à palestra que acontecerá, às transsexuais e a diferença entre gênero. De forma alucinada, elas colavam absorventes sujos de sangue nos espelhos.

Três terceirizadas da limpeza são chamadas para limparem o banheiro. Apenas duas delas terminaram o ensino fundamental. Uma delas é mãe solteira. Na noite anterior, ela tinha ouvido de sua mãe, que não ela podia sair para comprar uma blusa nova no shopping com a amiga, que “na hora de dar tinha sido bom. Por isso, que cuidasse da criança sozinha”.

“Para ser mulher precisa menstruar”, pensava essa mãe solteira. Quanta bobagem! Menstruo desde os 10 anos, engravidei e sustento meu filho sozinha, porque o pai o abortou mesmo antes dele nascer. Enquanto limpava os espelhos, sentia o quanto tudo aquilo era desigual. A cada absorvente descolado, a cada parte do rosto que era revelado, vinha à tona as cicatrizes físicas, as marcas psicológicas do racismo, do machismo e do patriarcado.

Tá vendo, querida? Sendo assim, o banheiro não se torna um lugar seguro por agrupar pessoas do mesmo gênero, como se não existissem orientações sexuais, classes, raças e biotipos diferentes. Já pensou que o banheiro feminino pode se tornar um ambiente inseguro para mim e para todas aquelas que não fazem parte da sua identidade? Outra coisa, se proibissem a nossa entrada quem fiscalizaria quem é trans? Quem é mulher?

Amiga, diversas mulheres diminuem e humilham outras, muitas vezes, com pequenas e sutis expressões machistas e degradantes, colocam sangue acima de sangue. Mas, e quando o buraco da desigualdade é mais embaixo? E quando um sangue se sobressai a outro? Sabia que o Brasil lidera o número de assassinatos de pessoas trans no mundo? Sabia que o Brasil é sétimo país que mais mata mulher? Sabia que o homicídio de mulheres negras aumentou mais do que 50% nos últimos dez anos? Sabia que esses dados podem mudar? Quando – principalmente – a subjetividade da desigualdade mudar, esses números mudarão também. Quando a vida privada não estiver permeada por preconceitos, e suas minuciosas manifestações, talvez, só assim, todas nós estaremos seguras em qualquer banheiro, em qualquer privada.