20dez 18

PERPÉTUAS M.C: DEFENDENDO O EMPODERAMENTO FEMININO

 

Quando você pensa em moto clube, uma imagem geralmente vem à mente: caras com barbas e um monte de couro montando suas motocicletas.

Vamos desafiar essa imagem. Em todo Brasil, grupos de motociclistas só para mulheres se reúnem em eventos comunitários, fazem doações para instituições de caridade, circulam por todo o mundo e geralmente mostram ao que moto não é apenas “brinquedo” para meninos.

Meu primeiro contato com as Perpétuas foi através de uma matéria da Vice, o texto em questão falava sobre um moto clube masculino. Mas até aquele momento eu não imaginava que houvessem grupos de mulheres dedicadas ao motociclismo como elas.  Com minha proximidade nesse universo crescendo, fica difícil ignorar o fato de que muitas vezes os M.C femininos não chegam nem perto dos masculinos em termos de tamanho e visibilidade. Mas os poucos que consegui descobrir em uma pesquisa rápida no Google, comprovam que a união faz a força.

As integrantes carregam nos coletes as homenagens as integrantes que partiram precocemente.

 

As Perpétuas foram fundadas em 1 de junho de 2013,  partindo do ideal de mulheres  que queriam apresentar uma nova abordagem ao ciclismo e mostrar que as motos não são apenas para homens. Apesar dos poucos anos de existência o clube conta com aproximadamente cem integrantes, um número pequeno se comparado aos dos clubes masculinos, mas que na prática é uma vitória já que esse número só faz crescer.

Para Erika Branco, conhecida no meio como Presidente Toco, a realidade feminina é diferenciada e necessita de um MC adaptado a suas situações. “Nosso ideal era um MC que se enquadrasse e respeitasse as necessidades da mulher”, aponta ela que está na liderança desde 2015 e garante não existir rivalidade com nenhum outro moto clube.

Perpétuas pelo mundo

O brasão costurado nas jaquetas, apresenta uma figura feita de peças avulsas de moto, a Perpétua.

“As mulheres não devem “ganhar” espaço, precisamos de respeito. Respeito se conquista, com muito trabalho e paciência”.

Ao conversar com a presidente Toco, percebo que o objetivo das Perpétuas não é apagar o estereótipo de pertencer a uma gangue de motos. Elas não são anjos do inferno e não cabe a elas esse papel. Fica clara a relação de comunidade e o fato de montarem em suas motos como família. “Conheço M.C misto que se desenvolve muito bem. A irmandade vem do motociclista, independente do gênero que carrega em seu RG. O MC é resultado dos motociclistas que o formam”, reforça.

“Quando falamos em respeito estamos falando da forma mais abrangente que pudermos alcançar. Respeitamos todas as opções das integrantes, seja gênero, sexual, religiosa, política, dentre outras. Não só respeitamos como defenderemos o direito de cada uma ter suas opções e opiniões”, conclui. Além de levar o ideal do respeito às mulheres por onde passam, as integrantes do clube dão atenção a função social participando de atividades filantrópicas e focando no objetivo de construir seu próprio “refúgio”, uma espécie de vila que irá abrigar as Perpétuas que lá desejarem morar na velhice ou em caso de necessidade.

Para se tornar membro do clube é obrigatório ser mulher (incluindo transgêneros),  possuir moto e carteira de habilitação. “Não temos exigências de cor, cilindrada ou modelo de moto. Exigimos que pilote ou queira pilotar, pois ajudamos e incentivamos que tem interesse em se formar motociclista”, ressalta Toco. As integrantes passam por um processo rigoroso que começa no nível de PC (parceira), nessa nomenclatura a interessada tem acesso concedido as reuniões, viagens e eventos com as Perpétuas. Durante todo esse tempo em que ocorre o processo de adaptação a avaliação é mútua, tanto a pessoa interessada avalia o clube como é avaliada, sendo identificada por portar em seu colete o bordado do brasão escrito “parceira”.

Após essa etapa o próximo nível é o de PP (próspera), quando o ingresso no clube ocorre oficialmente. O colete também sofre alteração, com bordados oficiais do nome do clube, nome da integrante e cidade. Além disso, é possível alcançar mais duas patentes: meio-escudo e escudada, passando a integrar a Máfia16, estrutura sólida do moto clube.

As reuniões são regionais, chamadas de “mesa redonda”, a frequência varia de acordo com a necessidade do clube, mas sem o peso da obrigatoriedade. “Temos uma reunião geral onde comemoramos mais um ano de existência. Nossas sedes são móveis, escolhemos uma cidade onde se possa passear pela região e lá nos reunimos. Prezamos pelo lazer, sempre. Então não exigimos qualquer sacrifício das integrantes, vai quem quer e quem pode, quem não pode por questões financeiras, tentamos ajudar da melhor forma”.

O “castelo”, “sede móvel” das Perpétuas.

A cena do motociclismo está crescendo para as mulheres; e as Perpétuas estão aí para provar que existe espaço para todos, sejam eles homens ou mulheres. O importante mesmo é o respeito.

 

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